Adeus.

Numa primeira impressão, pode parecer estranho ou até mesmo incoerente começar um blog falando sobre despedidas, mas a verdade é que nada é tão constante na vida de quem decide viver viajando do que o adeus.

Nos despedimos dos nossos pais, do conforto da nossa casa, dos nossos amigos e amores, dos nossos problemas, da nossa cultura, muitas vezes até da nossa língua e, a cada nova parada do roteiro, dizemos também “tchau” à antiga versão de nós mesmos, para sempre modificada pelas novas experiências. Heráclito, filósofo pré-socrático, afirmava que ninguém entra no mesmo rio duas vezes, pois, nem mais o rio será o mesmo, nem aquele que o adentrou. Assim são as viagens.

Ao se optar pela vida “nômade” é preciso se acostumar a ver as coisas através de retrovisores e janelas de avião. Cada check-in representa o início de uma nova contagem regressiva para o próximo adeus. Podemos trocar números de telefone, e-mails, acumular milhares de fotografias e carimbos no passaporte, mas, por mais marcantes que tenham sido os momentos compartilhados, eventualmente terão que ser deixados para trás, salvos apenas em nossas memórias.

Viajar é aprender a abandonar. E isso não é algo ruim. O fato é que a certeza da separação nos faz melhores viajantes, mais ávidos a aproveitar cada segundo do trajeto, cada nova experiência, cada encontro e também a não sofrer tanto a cada desencontro. É saber que o agora é tudo que se tem e que toda despedida representa a continuidade da jornada ou a chance de programar o próximo roteiro. Não é à toa que muitas culturas utilizam a mesma palavra tanto para chegadas quanto para as despedidas. O aloha para os havaianos, ciao para os italianos e shalom em hebraico, são símbolos dessa dualidade inerente não só à própria condição humana, mas principalmente aos que seguem uma vida itinerante.

Há alguns anos, antes de fazer minha primeira viagem, li um texto que dizia que é preciso ir embora. Desde então, sempre que me preparo para algo novo e desafiador, relembro daquelas palavras. Se não nos permitirmos ir embora, por minutos, anos ou para sempre, permaneceremos eternamente fadados à condição de espectadores de nós mesmos ou, pior, da vida daqueles que ousaram partir.

Assim como o pôr do sol não representa o fim dos dias, mas apenas daquele dia em particular, se despedir é uma forma de dizer que algo novo se iniciará, por isso, acho que nada mais apropriado do que começar o blog assim:

Goodbye, adíos, adieu, sayonara, auf wiedersehen, zàijian, totsiens, arrivederci…

ADEUS.

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3 comentários em “Adeus.”

    1. Oi Miriam, tudo bem?
      O medo sempre existe, acho que não importa quantas viagens já fizemos. Recentemente me mudei de vez pra Buenos Aires para estudar e nunca me senti tão assustado, parecia até que eu nunca tinha saído da minha cidade antes haha. Quando estamos longe do conforto do nosso lar tudo é amplificado, mas vale MUITO A PENA. A recompensa cultural, de vida, de laços formados depois q se vence os medos é inestimável. Espero que você consiga ultrapassar seus receios e caia na estrada.
      Obrigado e boa sorte!

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